29.6.16

O barulho ensurdecedor do silêncio e o futebol

A Suíça é um país muito, muito silencioso. Esse silêncio só é quebrado por basicamente três sons:
o do sino das igrejas, que badalam a cada hora
o do sino pendurado no pescoço das vaquinhas que pastam pelos alpes
o do som das sirenes dos carros de polícia, das ambulâncias ou dos bombeiros (ainda assim, muito raramente)

Eu me desacostumei tanto com barulho que, hoje em dia, até com buzina, eu as vezes me assusto (sim, é pra rir). E xingo digo mentalmente ao motorista "aê, ô, babaca"!
O silêncio da Suíça as vezes chega a ser ensurdecedor. Tanto que quando estou em casa e me dou conta disso, preciso ligar um rádio, a tv ou algo assim para quebrar todo esse comedimento.
É um paradoxo, porque sim, o silêncio faz bem e sou muito grata por poder desfrutar dele quando eu mais preciso, mas as vezes ele assusta, assusta tanto que quando ele é quebrado, parece que algo muito, muito estranho está acontecendo.

Como aconteceu essa semana. Na segunda-feira, no final da tarde, eu estava em uma aula, quando de repente, começamos a ouvir buzinas e gritaria. Já pensei que alguma coisa "errada" estava acontecendo na Suíça. Eu, que male male estou acompanhando a Eurocopa, fiquei sabendo que o buzinaço era porque a Itália tinha ganhado o jogo contra a Espanha.

Estranho, muito estranho esse barulho todo para festejar, rs.. 

Comemoração barulhenta pelas ruas por aqui só acontece mesmo quando um time estrangeiro ganha, porque suíços são contidos até quando comemoram. Não fazem bagunça pelas ruas (salvo exceções), tão pouco saem buzinando quando a Suíça ganha.

Creio que é só mesmo nas arquibancadas do estádios que a gente vê os suíços gritando e vibrando quando tem jogo. A Suíça já foi eliminada da Eurocopa. Entretanto, até agora o gol que está sendo considerado o mais bonito do campeonato, foi feito pelo jogador suíço Shaqiri.
Gol de bicicleta.
E esse foi mesmo pra quebrar o silêncio!




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17.6.16

A espontaneidade que hoje eu estranho

Que suíço é um povo formal, isso não é novidade. Espontaneidade é uma coisa praticamente inexistente por aqui. Suíços podem ser sim cortezes e na maioria das vezes muito educados, a simpatia até existe, mas ela é uma coisa, na maior parte do tempo, muito, muito contida e sem grandes alardes.

"Espontaniedade deve ser cuidadosamente planejada".
Assim é na Suíça. :-)
A gente que mora aqui, com o passar dos anos, sem perceber, vai também se modificando e ficando mesmo mais contida nas demonstrações de afeto e até no contato com outras pessoas.

Hoje aconteceu uma coisa interessante neste sentido. Eu, em vez de ir ao supermercado fazer as compras para o final de semana e para a semana seguinte, como é meu costume, resolvi comprar on line e ir retirar no local. Aqui perto de casa tem o serviço Le Shop do supermercado Migros que tem esse sistema de compra on line.

Pois bem, esperei meu marido chegar do trabalho pra ir até lá, porque precisa ser de carro. Assim fomos. Chegando lá fomos recepcionados pelo funcionário com as nossas compras. O rapaz já chegou brincando e contando piada. Levamos um "susto"! Todo sorridente, ele perguntou porque a gente não estava assistindo ao futebol (rs...) (a Eurocopa começou) e foi nos mostrando as compras (eles costumam fazer isso com os legumes e frutas pra mostrar que estão bons e que são de boa qualidade) e o rapaz continuou brincando a cada legume ou fruta que ele nos mostrava. Eu e meu marido rimos bastante com ele. Um rapaz super simpático e acima de tudo feliz com o seu trabalho.

No carro, já de volta pra casa eu comentei brincando:
- Que drogas esse menino tomou hoje?
- Isso não é droga é la vida, responde marido
- Rimos. Eu complementei: com certeza ele tem Migrationshintergrund (descendência estrangeira)
- Marido responde: com toda certeza!!
Ai seguimos tentando adivinhar de que país deveria vir a parte migratória dele.

Migrationshintergrund  é uma palavra muito usada por aqui para se referir aos filhos de imigrantes ou filhos de suíços casados com imigrantes. É muito comum ainda que alguns imigrantes adorem falar que tem Migrationshinterground no sangue. Mesmo que esses imigrantes tenham nascido aqui (ou que morem aqui há anos), ou mesmo que eles sejam filhos de suíços com imigrantes.

No fim eu fiquei chocada. Não com o rapaz, mas comigo mesma por achar estranho todo esse comportamento tão aberto e espontâneo.

Acho que preciso passar uma temporada no Brasil, porque já nem me lembro mais de como é agir com tanta leveza e espontaneidade! 
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8.6.16

O lado bom

Chuva: o tema do momento na Suíça...

Um diálogo ouvido no trem:
- Mein Gott, que primavera é essa?! Chuva, chuva, chuva... não aguento mais.
- É... não temos muito o que fazer senão esperar...
- Pois é... mas eu esperava uma primavera pelo menos um pouco ensolarada.
- Eu também, mas pelo menos pra mim teve um lado bom: não tive alergia ao pólen esse ano. 

Anime-se!
Somente 157 dias de chuva.
Depois neva de novo.

Eu, como não tenho alergia ao pólen, continuo procurando pelo lado bom de tanta chuva. Mas, pelo menos, no meu aniversário (que foi segunda-feira dia 06), a chuvarada deu uma trégua e o dia foi lindo! Inacreditavelmente esquentou e o sol brilhou durante todo o dia. Melhor presente, ever!

Hoje chove e a previsão para os próximos dias não é nada animadora.
Acho que preciso escrever de novo para a Santa Clara.

Quantos dias mesmo faltam para o verão?
Oremos para o astro sol!
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3.6.16

Altdorf, a cidade do herói suíço Wilhelm Tell

O ano era 1307. A situação, vexatória: todos os cidadãos suíços deveriam se inclinar para saudar um chapéu, com as cores da Aústria, que fora pendurado em um poste em uma praça da cidade de Altdorf. Todos que passassem por ali deveriam "reverenciar" o chapéu, demonstrando assim, respeito aos então Imperadores de Habsburgo, que à época lutavam pela dominância do cantão Uri (onde está localizada Altdorf).
Cidade de Altdorf: cercada pelos alpes.
Para testar a lealdade dos suíços aos imperadores, Hermann Gessler, um tirano governador austríaco, ordenou que soldados vigiassem o chapéu a fim de se certificar que as suas ordem estavam sendo cumpridas.

Jogo de luzes no monumento a Tell em Altdorf, representando a encenação do arqueiro
ao acertar a flecha na maçã sob a cabeça do filho.
É ai que Guilherme Tell entra na história. Ele e seu filho, um dia, caminhando pela praça não fizeram a tal reverência ao chapéu e, por isso, foram presos.

Você já deve ter visto em filmes, desenhos ou mesmo em alguma charge, uma cena clássica, onde um arqueiro tenta acertar com uma flecha uma maçã disposta na cabeça de alguém. Pois é, é da lenda de Guilherme Tell que surge essa encenação. Tell era conhecido como um homem forte e bom atirador e por conta destes dotes, o governador quis testá-lo.

 Conforme a Wikipédia:
"Como castigo por Tell não ter reverenciado o chapéu, o governador austríaco  o fez disparar a besta (uma arma com aparência de espingarda acoplada a um arco de flechas) a uma maçã na cabeça do seu filho. Tell tentou demover Gessler, sem sucesso; o governador ameaçaria ainda matar ambos, caso não o fizesse.
Tell foi assim trazido para a praça de Altdorf, escoltado por Gessler e os seus soldados. Era o dia 18 de Novembro de 1307 e a população amontoava-se na expectativa de assistir ao castigo (e, sobretudo, ao seu culminar). O filho de Guilherme foi atado a uma árvore, e a maçã foi colocada na sua cabeça. Contaram-se 50 passos. Tell carregou a besta, fez pontaria calmamente e disparou. A seta atravessou a maçã sem tocar no rapaz, o que levaria a população a aplaudir os dotes do corajoso arqueiro.

Não obstante, Guilherme trazia uma segunda seta. Gessler, ao vê-la, perguntou por que ele a trazia. Tell hesitou. Gessler, apressando a resposta, assegurou-lhe que se dissesse a verdade, a sua vida seria poupada. Guilherme respondeu:
"Seria para atravessar o seu coração, caso a primeira seta matasse o meu filho".

Indignado, Gessler mandou o rebelde para a prisão alegando que dignaria a sua promessa deixando-o viver — mas preso, no castelo de Küsnacht. Guilherme foi levado acorrentado de imediato para um barco em Flüelen, onde esperou que Gessler e seus soldados embarcassem. Não muito distante do porto, deu-se uma tempestade. O Föhn, um vento do Sul, causava ondas tão altas que dificultou a viagem, praticamente arremessando o barco contra as rochas. Os que lá viajavam, assustados, gritaram: "Só Guilherme Tell nos pode salvar!". Gessler libertou Tell, que conduziu o barco em segurança ao sopé da Montanha Axenberg, perto de uma rocha chamada Tellsplatte.

Quando Tell amarrou o barco, ele atirou uma lança em um soldado, saltou do barco e, empurrando-o com os pés, fugiu pelo cantão de Schwyz. Gessler conseguiu sobreviver à tempestade e chegou ao castelo de Küsnacht nessa mesma noite. Tell se escondeu em uns arbustos num beco que o levaria à residência do governador. Assim que Gessler e os seus soldados apareceram, Tell matou-o com uma seta da sua besta, libertando o país da tirania do governador. Segundo a lenda, este evento marcou o início da revolta que ocorreu a 1 de Janeiro de 1308. "

Essa história é refutada por diversos historiadores. Muitos acreditam que Wilhelm Tell nunca existiu de fato. Até hoje, as evidências encontradas não foram suficientes para comprovar a história como verídica. De qualquer maneira, a lenda evoluiu e é contada até os dias de hoje. Se Tell, existiu ou não, ele ainda permanece no imaginário da cultura popular, sendo considerado como um verdadeiro herói e uma figura com a qual os suíços se identificam. Em uma recente pesquisa, 60% dos suíços acreditam que Tell tenha de fato existido.
Bom, a cidade de Altdorf é bem pequena, e como não poderia deixar de ser, vive um pouco da fama da lenda de Wilhelm Tell. Na cidade há uma estátua que o homenageia, assim como alguns estabelecimentos que levam o seu nome. Nós almoçamos no Restaurante e Pizzeria Wilhelm Tell.
Estátua representando Tell e seu filho
Altdorf fica localizada no cantão de Uri, mas já bem próxima à fronteira com o cantão Schwyz e  distante 55 km de Lucerna.
A cidade atrai muitos visitantes por causa de lenda de Tell e por estar cercada pelos alpes. Muitas pessoas fazem hiking até a montanha Schächentaler, que proporciona uma vista para todo os Vale Schächen. 


E, de fato, por onde quer que você ande, a cidade te dá uma vista espetacular para os alpes. É uma cidade bonita e bem agradável para se caminhar. 


E assim foi o dia em Altdorf, em um dos poucos finais de semana de sol desta primavera, que já está sendo considerada a mais chuvosa de todos os tempos.


Espero que logo mais, outros finais de semana de sol apareçam por aqui, para que eu possa continuar descobrindo outros cantos deste país tão lindo. Porque com chuva, não dá!

Ade Miteinander!
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