1.11.15

O nascer e o morrer na Suíça

Para muitas pessoas a morte é um tema tabu. Ninguém gosta de falar ou pensar sobre ela. Freud já havia escrito que o nosso subconsciente é programado para não pensar na nossa própria morte. E eu acho isso a mais pura verdade! Ora, senão a gente não viveria fazendo planos e vivendo como se a morte não fizesse parte da vida.

Como amanhã é feriado de finados no Brasil, quis escrever de como a morte, e o oposto dela, o nascimento, são tratados aqui na Suíça.

Os nascimentos são sempre muito comemorados (como em qualquer lugar do mundo deve ser). Os pais costumam mandar cartões com a foto do recém nascido para participar da sua chegada e muitas famílias também costumam decorar a frente de casa com uma plaqueta de madeira informando sobre a chegada do novo membro.


Já a morte é tratada por aqui de forma bem serena. Infelizmente eu já fui em enterros por aqui e também na Alemanha e percebi que as pessoas agem de forma muito menos intensa do que no Brasil. Não vi choros compulsivos ou gritaria. Claro que havia sofrimento sim, quem perde um ente querido sofre, mas o que quero dizer é que as pessoas aqui demonstram isso de maneira bem mais discreta.


Pra começar, os enterros são reservados aos familiares e aos amigos mais próximos do falecido ou do familiar. No caso de parentes ou amigos que não podem comparecer à cerimônia, é costumeiro enviar um cartão de pêsames para a família, muitas vezes com uma pequena quantia em dinheiro para que flores sejam compradas e o túmulo fique enfeitado. 

Diferente do Brasil, os enterros não são feitos de um dia para o outro. Muitas vezes a cerimônia funebre demora até uma semana para acontecer após a morte.  Enquanto isso o corpo fica em um ambiente refrigerado, até ser preparado para o enterro. Na Suíça muitas famílias optam pela cremação do corpo.

Logo após o enterro é feita uma missa (não vi missas de sétimo dia por aqui), e nesta ocasião os parentes e/ou amigos próximos prestam uma homenagem ao(a) falecido(a), se despedindo dele(a) com leitura de uma carta, onde relatam momentos da vida que passaram juntos, gostos, hobbies e aventuras de quem se foi, por exemplo.... particularmente achei essa uma forma linda de despedida!

Após essa cerimônia, a família costuma oferecer um almoço ou um café para os "convidados". Eu confesso que no primeiro velório que fui, achei isso muito estranho! Parecia uma festa, lá todo mundo no restaurante comendo e tomando café... depois fui entender que as despedidas aqui são feitas desta forma porque é uma maneira de compartilhar o que foi vivido de quem se foi, com quem ficou. E para os familiares do ente que se foi, acaba sendo um espécie de bálsamo poder relembrar, ouvir histórias desse familiar a partir dos seus amigos e até rir dos bons momentos que passaram juntos.

Acho que aqui as pessoas são bem mais pragmáticas com a questão da morte. Muitos fazem testamentos, deixam tudo documentado, isso para evitar que quem fique, sofra ainda mais com questões burocráticas.

Meu marido tem um casal de primos que trabalharam muito e prosperaram bastante. Eles tem dois filhos entrando na adolescência. Um dia conversando, eles nos contaram que já fizeram testamento, documentado tudo: o que deve ser feito com o corpo deles (caso os dois morram e os filhos fiquem sozinhos!), o que deve ser feito com os negócios, a casa e etc... disseram que fizeram isso para proteger os filhos, porque sabem que no momento da morte, muitas pessoas não sabem como agir e algumas pessoas, infelizmente, podem querem tirar vantagem deste momento.

E, realmente, muitos problemas e aborrecimentos seriam evitados se, em vida, a gente conseguisse pensar sobre a morte...

Penso que aprender a lidar com serenidade com a morte, faz com que soframos menos. Afinal essa é a única certeza que a gente tem na vida...

Enfim, tema difícil... volto em breve com um post mais leve.

10 comentários:

  1. Oi Sandra
    Sempre leio (apesar de nunca comentar) o seu blog e adoro! Estive uma vez somente por um dia na Suíça e adorei tudo o que eu vi.
    Sim, esse tema é mesmo um pouco pesado, mas são "curiosidades" e aspectos culturais deste tipo que eu adoro ler no seu blog. Porque são assuntos assim que enriquecem demais o conteúdo de um blog. Escrever sobre viagens, por exemplo, todo mundo escreve, mas só mesmo quem está inserido na cultura de um país, vivendo o dia a dia dele consegue nos transmitir tantas coisas que não saberíamos lendo só blogs de viagens (que, não me entenda mal, são bem legais também). Enfim, só queria deixar registrado que gosto muito do seu blog. Obrigada por nos trazer assuntos tão interessantes. Um abraço.
    Fernanda Regina

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    1. Nossa, obrigada pelo comentário e por acompanhar o blog. Me senti lisonjeada agora :-).
      Eu sempre procuro diversificar os temas aqui do blog (detesto blog monotema,rs...) e acho interessante mostrar aspectos da cultura daqui em comparação a cultura brasileira, embora algumas coisas já soem tão naturais pra mim, por já viver aqui a um tempinho, que acabo nem tendo a idéia de um post. Vou pensar mais sobre isso :-). Um abraço.

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  2. Olá Sandrinha,
    Reitero o que a Fernanda escreveu acima!
    O papo não foi nada fúnebre, pelo contrário, foi bem interessante! Achei um mimo a cegonha anunciando o nascimento da Liah, jeitinho mimoso de mostrar ao mundo que a família cresceu.
    Quanto ao rito do velório, é de fato diferente do nosso com significados e configurações peculiares. Dias atrás fui a um velório aqui no Brasil da irmã de uma cunhada. Fico com a impressão de que os familiares do falecido se sentem prestigiados com a presença das pessoas, mesmo que elas não sejam do círculo íntimo de quem já se foi. Me soa como um consolo para quem fica saber que tantas pessoas compareceram ao velório. Mas é uma percepção muito pessoal, ok?
    Bjocks
    Márcia

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    1. Então Marcia, acho que acabei me expressando mal... O que quis dizer é que os conhecidos são sim bem vindos, mas aquelas pessoas que acabam indo a velórios só por curiosidade (como acontece no Brasil, rs...) não vemos por aqui. Eu tb acho que a família se sente prestigiada quando um ente que parte é prestigiado por tanta gente. Bjão querida!

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  3. O jeito que os Suiços lidam com a morte e muito parecido com aqui nos EUA. Eu concordo com voce, eles tem uma forma mais pratica e pragmatica de lidar com isso, como preparar testamentos pra ajudar e proteger a familia em um momento bem dificil. Acho bem interessante esse modo mais sereno de encarar a morte de alguem.
    Beijinhos

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    1. Eu não sei se isto está mudando no Brasil, mas pelo que sei só as famílias muito ricas faziam testamento. E, mesmo assim, quando o testamento envolve fortunas, tinha sempre um contestamento.... enfim, coisa pra se pensar....Bjs

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  4. Sandra que linda essa placa de madeira na frente avisando o que a cegonha trouxe! Apaixonei! E sobre os velorios, minha mae disse que antigamenteno Brasil os velorios eram cheios de comida, tanto que ela e os irmaos quando criancas ficavam contentes (oi?) Quando sabiam que haveria algum velorio porque eles iam comer de tudo e muito kkkkkkkk No Brasil fazer testamento e mau agouro kkkkk eu tinha um prof na fac de Direito que dizia isso e ai rle explicava o quanto era importante, eu concordocom ele porque sempre tem urubus proximos aguardando pra dar o bote nos fragilizados pela perda... eu so sei que nao vou a velorio nenhum.... so vou no meu, porque ne? Ia pegar mal nao aparecer kkkkkkk Beijo!

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    1. Então, parte da família da minha mãe é de uma cidade do interior de São Paulo de grande imigração e influência japonesa. Os japoneses tinham o hábito de enfeitar o túmulo dos parentes em determinada data com docinhos típicos do Japão. Nesta época as cças da cidade adoravam ir aos cemitérios nestas datas para comer os doces deixados lá, hahahaha. isso é o que contam os meus tios...rs..
      Eu já ouvi mesmo falar que fazer testamento é mau agouro, rs.. (o povo tem cada uma!). Tb acho que é uma medida super importante pra proteger, de alguma maneira, quem se gosta. E nem precisa ser gente de grandes fortunas, né!? Como diz um amigo meu, advogado: documento não pesa! Bjs

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  5. Esta parte cultural de nascimento e morte é igual aqui na Holanda! Sandra, ohhh tem muito funeral mais legal do que aniversário, viu? rs Bjs

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