4.12.14

Estrangeirices

Na semana passada um rapaz esteve aqui em casa para fazer um pequeno reparo em um cômodo, foi coisa rápida. Mostrei o que precisava ser feito e ele começou a trabalhar.

Em um certo momento o telefone toca, eu atendo, e começo a conversar em português com uma amiga. Quando eu desligo o telefone o rapaz pergunta: "Espanhol? Italiano? Você é espanhola ou italiana"? - Não. Respondo. Eu conversava em português e sou brasileira. ( quase sempre que digo que sou brasileira a primeira reação é a de surpresa,rs... sei lá porque!)

Detalhes técnicos respondidos, ele me pergunta há quanto tempo moro aqui e bla bla... eu pergunto de volta e ele me diz que faz um pouco mais de 20 anos que mora na Suíça. 

Papo vai, papo vem, o rapaz me conta (não sem demonstrar uma certa vergonha que, acredito eu, seja por causa da guerra) que vem da Bósnia.  Ele segue dizendo que chegou aqui na transição da fase de criança para adolescente. O pai dele já estava na Suíça e quando a guerra nos países da ex Iugoslávia estourou, ele, a mãe e os irmãos conseguiram vir para cá. Eu digo a ele que já visitei Móstar, na Bósnia, por causa de uma viagem que fiz para a Croácia. Ele se alegra e conta alguma coisa da Bósnia.

Um símbolo: ponte na cidade de Móstar na Bósnia Herzegovina, que cruza o rio Neretva.  A ponte tinha 427 anos, até ser destruída em 1993, na Guerra da Bósnia. Logo após, foi reconstruída e reaberta em 2004.
O rapaz segue dizendo que apesar da guerra, que agora lá não é perigoso viver e que não há mais violência. Que antes da guerra eles eram um só povo e que foi a guerra que dividiu tudo, mas que ele aqui na Suíça tem amigos croatas, macedônios, albaneses e etc.. e muito respeitoso me diz que era a primeira vez que ele conversava com uma brasileira, rs..

Ruazinhas da cidade de Móstar, na Bósnia

Muitas casas nos países da ex Iugoslávia ainda exibem as marcas da guerra nas paredes (marcas do tiroteio no lado direito desta construção). Alguns preferiram reformar as casas, outros deixaram as marcas para que a guerra não seja esquecida

Conversa vai e conversa vem, em um dado momento ele me diz que seria bem difícil se ele tivesse que retornar a terra dele: "você sabe né, eu sou estrangeiro aqui e se eu voltar para a minha terra, serei estrangeiro lá também".

Ele frequentou a escola na Suíça, fala o dialeto, trabalha e continua sendo e se sentindo estrangeiro. Fiquei pensando que apesar de eu viver na Suíça há bem menos tempo do que ele, eu também me sinto assim e acho que vou me sentir por muito tempo, senão para sempre. Apesar de ter me adaptado muito bem a muitas coisas aqui, já aconteceu, claro, de eu me sentir deslocada, mas isso não chegou a ser um problema ou gerar maiores crises em mim. Eu costumo dizer que eu não tive muitos problemas de adaptação, nunca senti que isso poderia ser um grande problema pra mim. Claro que o idioma, a alimentação, foram coisas que fui me adaptando aos poucos. Comigo foi assim: eu procurava pensar: já que eu estou aqui, vou morar aqui, vou viver aqui, porque tornar isso mais difícil do que realmente é? Já basta ter que lidar com a saudade, com outros costumes, com as lutas do dia a dia e etc ...

No Brasil eu também me sentia um pouco fora de lugar com algumas coisas consideradas por muitos como tipicamente brasileiras. Eu, por exemplo, não gosto de sertanejo, nem de axé, nem de pagode, nem de muito barulho e  nem de carnaval.

No fundo cada imigrante vai se sentir mais ou menos integrado, dependendo da maneira de como ele vive ou escolheu viver. Isso é muito individual e depende muito também da personalidade de cada pessoa.

Eu sei que tenho aprendido muito por aqui, tanto com os locais, quanto com os povos de outras partes do mundo. Aqui na Suíça já conheci/tive contato com gente (a maioria em cursos de alemão e de integração que eu fiz) da Croácia, da França, da Itália, da Escócia, da Grécia, da Espanha, do Peru, da República Tcheca (minha vîzinha), da Venezuela, do Chile, da Ilha Maurícius, da Alemanha, do México, de Portugal, da Inglaterra, da Bulgária (detalhe que todo búlgaro que conheci comenta que a presidente Dilma Roussef tem ascendência búlgara, rs..), da Sérvia e etc... e até da Suíça, rs... com alguns deles (latinos) ainda mantenho contato. Eu adoro e acho muito rico todo esse caldeirão multicultural!

Pedra em referência a guerra da Iugoslávia

Pena que o problema do mundo sejam as suas fronteiras.

26 comentários:

  1. Você fechou o texto, que foi ótimo por sinal, com chave de ouro. Eu penso nisso com frequencia. Seria um sonho ter um mundo sem fronteiras.
    Aliás, fiquei curiosa: há quanto tempo você mora na Suíça mesmo?
    Beijos

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  2. Que post interessante, Sandra. Eu sinceramente adoro esse caldeirão multicultural!
    beijos

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  3. Sandrinha , em Madrid , morando lá 5 anos , sempre me senti como estrangeira :-) e 2 anos aqui em Londdres , me sinto como daqui, me explico, Londres multiracial te faz sentir como mais um daqui, nao terra de ingleses, mas de todos. Feliz fim de semana. Love xxx

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    1. Realmente Ana, cidades como Londres ou Nova York são mesmo super multiculturais, difícil alguém se sentir um estranho no ninho, rs...Bjs

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  4. Sabe, Sandra, que o que mais percebo neste caldeirão multi cultural todo que é muito mais fácil ter uma sintonia com um outro estrangeiro, como nós, mesmo que ele venha de um país totalmente diferente, até com outra religião, do que ter uma sintonia com um nativo. Claro, pelo fato até de estarmos na "mesma situação", as pessoas se identificam. Sem contar que é muito enriquecedor o contato com estas variadas culturas. Eu não tenho do que reclamar, não. É cada coisa legal que a gente descobre! Bjs

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    1. Concordo Eliana, com outros estrangeiros a gente acaba meio que sentindo que "estamos no mesmo barco", rs.. ai nos identificamos. No mais, também muito legal esta troca cultural que podemos ter! Bjs

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  5. Conhecer pessoas de vários países diferentes é uma das coisas que mais agrada nessa minha vida de estrangeira, Sandra. Pq lendo livros de história muitas coisas passam "batidas" agora ouvir histórias de pessoas que vivenciaram ou viveram as consequencial de coisas que só leio lem livros têm um peso muito grande e é quase impossível eu esquecer.

    E viva multiculturalidade!!!! Beijos

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    1. Sim Liza, eu também adoro conhecer gente de outros lugares, com outras vivências e outra cultura! É mesmo muito enriquecedor. E como você disse, uma coisa é ler em livros, outras é ouvir de gente que viveu tudo ou um pouco daquilo. Bjs

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  6. Esse caldeirão multicultural é sensacional,que experiência maravilhosa estar aí, a Suiça é um país tão lindo...e sabe que quero muito conhecer a Croácia?Já tô pesquisando os preços e a melhor época de ir..tens algumas dicas,Sandroca?
    Bjs!

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    1. Ai Madi, eu acho que você vai adorar a Croácia! Eu e marido fomos pra lá esperando "nada" do país e nos surpreendemos. É um país muito lindo! Gostei particularmente de Dubrovnic e Korcula, cidades pequenas margeadas pelo mar adriatico, um deslumbre!!
      Não sei qual a melhor época pra ir, mas estive lá em 2009, no mês de setembro, finzinho de verão e temperatura agradável todos os dias! Sempre comentamos de voltar, pois o país vale a pena! Bjs

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    2. Tu achas que dá pra ir com criança ou melhor não?Pois tenho 2 filhotes, uma de 19 e um de 5!

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  7. oi minha amiga

    Sempre achei vc corajosa, por ir para tão longe.
    É o amorrrrrr... não gosta de sertanejo mas preciso cantar rs...
    Eu não sei se teria essa coragem, acho que não.
    Fato que é bom ver vc se adaptando ai,tanta gente sai do Brasil e quer voltar.
    Sabemos que não é fácil, a adaptação, mas com força de vontade se consegue tudo.

    Morta de sdd doce...

    Tem Whats? se tiver me add

    bjokas

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    1. hahahaha, no Brasil não tem como não ouvir sertanejo, hehehehe, lembra dos bares perto da faculdade?
      Bel, me manda pelo hotmail seu número de what's up que eu te adiciono! Bjs

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  8. Nossa que interessante!!! Realmente, acho que nunca pensamos nessas coisas. Mas me lembro de uma professora que tínhamos em Santos, ela vinha do sul. e sempre dizia que no estado de sp todos a tratavam como sulista e quando ela voltava para visitar familiares, todo mundo dizia que ela não era mais do sul e que já estava toda paulista. e ela nos contou que as vezes se sentia uma mistura, de lugar nenhum.

    E nem precisou sair do Brasil O.o hehehehe

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    1. Pois 'e, as vezes nem precisa ir muito longe pra se sentir "estrangeiro"...

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  9. Adaptacao e algo muito pessoal e algumas pessoas tem mais dificuldade que outras mas eu amo essa mistura que encontro no meu dia a dia, acho o maximo poder conversar com pessoas de todas as partes do mundo, acho que a gente enriquece culturamente e a nossa mente se expande de uma maneira incrivel. Eu tenho a teoria de quanto mais expostos ao caldeirao cultural menos sentido a gente ve nas fronteiras.
    Beijinhos

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    1. Monique, ótima colocação! Tb acho que a nossa mente se abre de uma maneira extraordinária! A gente aprende muito e se enriquece com a troca cultural que podemos ter, embora, tenha gente que nem ligue pra isso, vive aqui, mas não sai da "casinha", rs.. Bjss

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  10. Olá Querida! Teu blog é demais! Adorei o modo como tu escreve sobre as curiosidades da Suíça, é super informativo, diferente dos outros que vi por aí. Meu irmão mora em Elgg e esse ano iremos visitá-lo no Natal e no Ano Novo. Quais lugares são legais de conhecer no inverno além do Jungfraujoch e da Montanha Eiger que iremos conhecer? (eu tinha comentado antes, mas o comentário não foi hehehe). Muito obrigada e abraços

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    1. Oi Luana! Obrigada pelo comentário!
      Bom, lugares bonitos para visitar na Suíça não faltam, rs.. eu te recomendaria Gruyéres, que é um vilarejo lindo que fica na parte francesa da Suíça (tem post no blog sobre lá), você pode visitar também o monte Pilatus, que fica em Lucerna, ou só a cidade de Lucerna, dependendo do seu tempo. Além de cidades como Thun, por exemplo, que é linda e de lá você tem uma vista perfeita dos alpes. Thun fica a caminho de Berna, dá pra visitar as duas cidades no mesmo dia, por exemplo, se você começcar o tour cedinho :-). Boa viagem pra você!! Abs

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  11. Acredito que nós sempre nos sentiremos estrangeiros, sabe Sandra? e exatamente como ele disse, estrangeiros aqui, e lá. Nao tem mais jeito.Tbm sempre tive essa sensacao no Brasil, mesmo antes de vir pra cá, lembro ainda mt menina, de sentir isso, que ali nao era meu lugar. Tbm detesto td isso que vc mencionou, e outras coisinhas mais, como p ex., o eterno e terrivel jeitinho brasileiro, odeio so de pensar que tal coisa existe. Mas apesar de amar viver aqui, tbm me sinto e sei que sou, uma estrangeira.

    Atualmente, sendo crista, entao,sou ainda mais. Pois somos estrangeiros tbm neste mundo, pois nossa pátria é celestial. Entao to duplamente ferrada ;-)

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    1. Nina, acho que o importante é sempre buscar a felicidade, independente de onde estivermos, sendo ou não estrangeiros! Bjs

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  12. Acho que esse post sempre será atual para qualquer estrangeiro. Você falou uma grande verdade, sempre nos sentiremos estrangeiros aqui e quando voltamos ao Brasil a nossa maneira de pensar nem sempre será como a de um brasileiro e por isso também nos sentiremos um pouco deslocados por lá.
    Uma vez expatriada, sempre expatriada! Não que isso seja ruim, tem lá seu lado positivo ter duas culturas, duas línguas e talvez seja bom pra vida saber extrair o melhor de cada cultura e país.

    Beijos e boa semana

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    1. Eu também vejo mais pontos positivos do que negativos. O legal é absorver o que cada cultura tem de bom! Bjs

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  13. Encontrei seu blog aleatóriamente no post de outro blog. Achei bem interessante, pensei em adicioná-la pois temos uma coisa em comum: a fotografia!
    Grande abraço

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