7.2.12

A Adoção TEM que ser um ato de amor


Quando criança, moravam na mesma rua que eu duas meninas gêmeas: Ana Fernanda e Ana Carolina, vamos chamá-las assim. Nós éramos amigas e estudávamos no mesmo colégio. Eu adorava a mãe delas, sabe aquela fase que você acha que a mãe da sua colega é mais legal que a sua? Pois é...

Em um dado momento começaram a falar que as meninas tinham sido adotadas, sabe aquele boato que vai se espalhando e ninguém sabe se é ou não verdade? Só sei que a coisa foi tomando grandes proporções e depois de um tempo os pais delas venderam a casa e foram morar em outro bairro mais distante. Lembro inclusive que disseram que eles haviam mudado por causa da fofoca instaurada sobre o fato delas terem (ou não) sido adotadas. Depois que elas mudaram nós chegamos a visitá-las algumas vezes, mas depois acabamos perdendo o contato.

Naquela época a adoção era um tabu. Poucas famílias que tinham filhos adotivos falavam abertamente sobre isso, o tema era segredo e geralmente morria com os pais, estilo aquelas novelas mexicanas quando descobriam que fulano ou beltrana eram adotados e o drama se consumava. Hoje é estimulado que os pais conversem desde cedo com a criança sobre a adoção.

Bom, eu abri esse parentêses porque logo depois que eu vim morar aqui e casei, um colega de trabalho do meu marido nos convidou para um jantar na casa dele. O meu marido sempre me dizia que esse colega era muito orgulhoso da esposa dele que é psiquiatra e tal... e o colega do marido sabendo que sou formada em psicologia, achou que isso daria uma "liga" entre a gente. Então nesta ocasião eu tive a oportunidade de conhecê-los. Pude conversar bastante com a esposa dele porque ela havia feito um intercâmbio na Argentina, então ela falava espanhol muito bem.

Quando estivemos lá conhecemos a Alice (vamos chamá-la assim), a bebê que eles haviam adotado. A  menininha estava lá há poucos dias e devia ter 3 ou 4 meses. Eles já tinham dois meninos e a mulher, vamos chamá-la de Cristine, já não estava conseguindo mais engravidar e ai optaram pela adoção. E a Cristine parecia mesmo muito feliz com a criança. E eu fiquei realmente tocada por ver que eles estavam oferecendo além do amor, amparo maternal e material que aquela criança tanto precisava. Pelo que meu marido comentou, a adoção foi feita em um país do leste europeu - a Cristine vem de lá - e parece que ela conhecia os trâmites para adotar e o processo acabou não sendo tão complicado assim.

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Depois de um tempo meu marido foi almoçar com esse colega de trabalho, eles não tinham contato diário porque trabalhavam em prédios separados. Ao perguntar sobre a Alice, o colega dele desconversou e ficou nervoso, e entre outras coisas ele disse terem descoberto que a bebê tinha um problema motor nas pernas. Durante a conversa ficou sub-entendido que a menina não estava mais com eles! Mais uma ou duas vezes ele e o meu marido almoçaram de novo juntos e meu marido tentou perguntar algo mais sobre a menina mas esse colega sempre se esquivava. Uma hora o colega disse que não queria mais comentar sobre isso (?).

Depois de um tempo a Cristine publicou um livro de poemas e o dedicou ao marido e aos seus dois filhos. Mas e a Alice?? Não sei o que pensar! Será que a devolveram, como quem devolve uma mercadoria que veio com defeito? Onde está a menina? Fiquei tão chocada que não consegui até hoje digerir esta história. E chocada também por a mãe se tratar de uma pessoa "intelectualmente esclarecida", ela é psiquiatra né, e sabe bem de todas as consequências que uma atitude nesse sentido terá na formação da psique desta criança.

Lembrei de tudo isso porque ontem a noite, assistindo a um canal de TV suíço, vi uma reportagem sobre uma garota que fora adotada por um casal suíço. A garota sempre soube que havia sido adotada e na sua adolescência isso foi se tornando um problema, apesar dela amar os pais e não ter dúvidas que os pais também a amavam como filha. Tempos depois ela foi atrás da sua história na Colômbia e lá descobriu que sua mãe biológica fora uma prostituta e usuária de drogas e que a mãe havia dado a luz a ela em uma penitênciária. Do seu pai nada soube porque a mãe dela se relacionava com muitos homens então poderia ser qualquer um. Depois disso a garota conseguiu, ao descobrir suas origens, fechar essa dúvida/questão na sua vida e seguir em frente.

Quem adota precisa estar de coração aberto e realmente querer isso. Não adianta pensar em adotar para fazer caridade (melhor então ajudar alguma instituição) ou para ser visto como benevolente e bom samaritano perante a sociedade. E no caso da adoção de recém nascido, é ainda mais delicado. Quem adota tem que estar emocionalmente disposto a aceitar a criança integralmente, realmente como se aceita um filho.  Quem é adotado espera receber amor, que é o que toda criança (e todo mundo) precisa e merece.




15 comentários:

  1. Sandra, esse assunto de adoção é realmente é muito sério, e uma das coisas que me "choca" aqui na França é como parece que está "na mora" adotar um filho de outra origem, principalmente com traços asiáticos (Coréia, Tailância, China, etc). Os pais adotivos dizem que escolheram pq sempre acharam bonitinho e queriam ter um filho "asiático"!!!
    Tenho uma amiga (francesa) que foi adotada, e hj ela tem a minha idade e há anos não fala mais com os pais adotivos, ela até tentou, mas não houve nenhum interesse. Foi um problema bem complicado, ela sofreu até abuso sexual do irmão adotivo durante anos, e tudo isso era tolerado pelos pais. Mais tarde ela conseguiu denunciar o irmão, o mesmo foi condenado, e nessa época os pais ainda jogavam na sua cara que apesar disso tudo ela nunca passou fome nem necessidade, o que provavelmente teria acontecido se a tivessem deixado onde ela estava. Fizeram mil proposiçéoes para que ela retirasse a queixa, mas como ela não o fez, foi "excluida da familia", e ele, o "estrupador", já cumpriu a sua pena e voltou para os braços da familia.
    Mesmo no Brasil, no meu trabalho como psicóloga ou no contato pessoal com pessoas que adotaram, NUNCA vi um filho adotivo que tenha o mesmo tratamento que os filhos biológicos (falo de familias com filhos adotivos E biológicos ao mesmo tempo). Geralmente é uma menina adotiva que é meio que tratada como a empregada da casa, tem menos oportunidades de estudo, e depois fica "encarregada" de cuidar dos pais adotivos na velhice, enquanto os filhos biológicos se tornam advogados, médicos, engenheiros, políticos...
    Adotar deveria ser um ato de amor, não de caridade!!!
    Mas no caso que vccomentou, será que o bebê não morreu? Ou foi "retirado"? As vezes acontece...
    Outro dia colocaram no facebook que uma lei brasileira queria possibilitar "devolver" os filhos adotivos, eu achei um absurdo, e as minhas "amigas" condenaram a minha atitude, diziam que os pais tinham o direito de voltar atrás, de mudar de idéia!!! Para mim ter filhos (biológicos ou não) é uma decisão que deve ser muito bem pensada ANTES... depois é sem volta!

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  2. Pois é Milena, super complicado esse tema! Nossa me deu até um arrepio lendo isso sobre a sua amiga ai na França. Meu Deus, como o ser humano pode ser tão egoísta e mesquinho??
    No caso dessa família aqui na Suíça, o que me intriga é que não ficou claro o que houve com a menina. Eu comentei com o meu marido: será que ela não morreu e ele me respondeu que se houvesse acontecido isso receberíamos um cartão de luto, como é comum enviarem por aqui. Mas eu acho essa uma resposta "prática" demais. Não saber o que houve me deixou agoniada... isso dá margem para imaginação e isso eu tenho de sobra. Pode também ter acontecido de terem retirado a menina e os pais estarem "traumatizados" com a situação e não quererem falar sobre isso. Sei lá, melhor nem pensar muito.
    Também concordo que adoção é para sempre e tem é preciso pensar muito bem sobre isso antes de tomar esta atitude. Abs!!!

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  3. Sandra, sem querer comparar, mas eu nao entendo nem que adota um animal e depois diz que nao quer mais, imagine uma crianca? Algumas pessoas tem atitudes por impulso, adotam, depois pensam melhor e nao querem mais. COMO ASSIM? No Brasil a mae de um ex namorado achou que nao poderia engravidar e adotou uma crianca, logo ficou gravida, as meninas tem quase a mesma idade, com a diferenca que ela sempre culpou a adotada por todos os problemas, diz que nao recomenda adocao. Aqui eu vejo muitas criancas adotadas, nao sei como funciona muito bem a cultura, mas fiquei chocada com a sua historia sobre a menininha "devolvida" .

    beijao

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    1. Pois é Simone, na verdade não sei ao certo se a menina foi devolvida, mas tudo leva a crer que sim né... Agir por impulso em uma decisão tão importante como essa é que não dá. Bjss

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  4. Esse assunto dá pano pra manga, na minha família tem uma pessoa que adotou uma criança a alguns anos atrás, hoje essa crinça está na adolescencia e dando muito trabalho, essa minha parente que fez a adoção sempre diz na cara dura que se arrepende amargamente pois os filhos genéticos dela nunca deram trabalho, eu fico de boca aberta e prefiro até me afastar pra não ouvir determinadas besteiras.Eu adotaria uma criança sim sabendo de todos os riscos, os mesmos riscos que se tem com um filho genético tudo pode acontecer mas nem todo mundo pensa assim, alguns tentam preencher um buraco outros tentam fazer bonito pra sociedade, sinto muito por esse criança que vc citou pois ela simplesmente foi devolvida como uma mercadoria com defeito.Abraços

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    1. Exatamente Renata. Riscos podem acontecer com filhos biológicos ou adotados. Ninguém está livre de problemas. Acho uma atitute grandiosa a adoção, mas eu particularmente, não sei se estaria preparada para ela. Bjsss

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  5. Se eu não me engano, aqui na Holanda, já aconteceu algo parecido. Foi o maior auê. Na minha família há casos de adoção e todos foram bem problemáticos. Um porque soube já adulto que era adotado e se revoltou, virou a cabeça. A outra, que sempre soube que era adotada se revolta porque joga na cara deles que eles não são seus pais de verdade...olha uma confusão. No entanto, todavia, adoção tem que ser baseada em muito, muito amor, incondicional. Às vezes eu não entendo nem um casal "normal"que resolve ter filho, porque penso que não realiza muito bem o que é ter um filho. Resolve ter filho como se comprasse uma boneca, porque é bonitinho, vaidade, sei lá. Não sei se vê muito filme, muita novela. Depois que os tem, ficam aí reclamando e já vi gente até arrependida. Agora se fazem isso com os próprios filhos de sangue, quem dirá com os adotivos! Filhos é coisa séria, sejam eles legítimos ou não!

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    1. Tem isso também Eliana. As vezes a "revolta" parte de quem foi adotado. Tem gente que joga na cara dos pais isso também... é complicado. Mas já vi casos em que a mãe perdeu o único filho de forma trágica e transferiu todo o amor que tinha por ele por uma criança que adotou. Isso sim é sublimação.

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  6. Sandra, adocao ainda é tabu pra muita gente. A familia que adota tem que ser munida de muita personalidade para enfrentar os preconceitos, isso é muito triste em vista que somos tao pra frente em tantas coisas...pena o que aconteceu com a Alice, se eles a devolveram deve ter sido um caso muito grave e complicado o que deve ser muito dificil pra eles tb.

    Eu sou da opiniao que o adotado deve saber já desde bem cedo que é uma crianca adotada.
    Tipo contar estorinhas antes de dormir de criancas adotadas. Até mesmo na Biblia existem alguns casos de adocao.

    Eu fiz com um amigo uma blogagem sobre adocao certa vez e coloquei tudo aqui neste blog:

    http://blog-blogagem.blogspot.com/

    Ali temos muitos casos de pessoas que adotaram e de pessoas que sao adotadas.

    Abracos

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  7. Oi Sandra, obrigada pela visita no meu blog. Adorei o teu, e com relaçao a esse post, muito triste o final da historia, espero so que essa bebezinha tenha encontrado uma familia que a ame de verdade.
    Bjs

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  8. Oi Sandra. Olha aqui na Holanda conheci duas colegas de trabalho italianas que mencionaram planos de adoção . Achei na época que era da boca pra fora, já que muito italianos são como os brasileiros. Dizem que vão fazer e acontecer - depois pensam melhor e passado um tempo desconversam e desistem da idéia. Pois as duas levaram a sério o negócio: entraram num curso (obrigatório durante o processo de pré-adoção) que diga-se de passagem é puxado.Dura um ano. A mãe e pai interessados ficam sabendo muito coisa da cultura chinesa, ouvem depoimentos de holandeses famosos que foram adotados e são encaminhados a adotarem meninas (e NÃO meninos). Também tem que escrever um livro sobre a própria vida: a infância que tiveram, o amadurecimento, como vêem a maternidade e o ato de criar um filho. Cursos/palestras, inscrição, viagem para a China, hotéis, transporte, etc. custo total: 20 mil euros. Hoje vejo as duas no Facebook com as meninas já crescidas e bem companheiras dos irmãozinhos.

    Achei o exemplo que vc contou no post muito, muito brutal. Como vc mesma disse: criança não é igual a brinquedo com defeito de fabricação = devolve prá loja. Aliás, essas duas colegas italianas me falaram que há inclusive pais que buscam adotar justamente crianças doentes ou mutiladas, por exemplo. Porque essas são justamente as mais rejeitadas.

    Agora, como nem tudo são flores... uma das italianas me contou que sempre nas palestras eles pintavam um quadro sublime dos chineses. Que eram super inteligentes, calmos, concentrados. E que era muito melhor ter uma chinesinha na família do que uma criança da America do Sul ou da África, porque tem uma caráter muito explosivo e rebelde. Ela estava totalmente lavada cerebralmente. Depois que a menina chegou da China e eu fui ouvir as estórias e fotos do país, percebi que os chineses são organizadíssimos em mandar o excesso de crianças em orfanataos para o mundo ocidental.Em massa. Para o Canada, EUA, França, Holanda, Escandinávia. Eles tem até orgulho disso, em saber que o que ninguém quis por lá e abandonou na rua é cobiçado no resto do mundo. Dá muito o que pensar na minha cachola...

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  9. Concordo totalmente com você, Sandra. Alguns anos atrás teve um caso polêmico aqui de um casal americano que adotou um menino russo e depois não o quiseram mais porque ele era muito levado. Colocaram o menino (sozinho!) no avião e o mandaram de volta para a Rússia. Igual mercadoria despachada no correio. Deu dó. Beijo

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  10. Georgia
    Obrigada pela indicação da blogagem sobre adoção. Vou ler assim que tiver um tempo.

    Taty
    Também desejo o melhor para esse menininha.

    Anita
    Não sabia dessa "máfia chinesa" de meninas para adoção. Pelo menos um ponto positivo é que parece que a Holanda estuda a fundo os planos de quem quer adotar e fazem um controle em cima disso! Só adota mesmo quem estiver disposto a passar pela "canseira". As vezes eu criticava um pouco a burocracia para quem queria adotar no Brasil, mas agora percebo que quem quer de VERDADE adotar tem sim que ter a paciência e o discernimento para lidar com essa escolha. Esse tema ainda está longe de acabar...

    Eli
    Criança não é um boneco que tem que ficar estanque. Criança tem que ser levada mesmo no melhor sentido da palavra. Esses casal tem que ir para a cadeia.

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  11. Em agosto de 2012 fomos ao Amparo Maternal conhecer nossa filha recém nascida, nos apaixonamos por ela a primeira vista.
    Na verdade ñ esperava por um bebê recém nascida, mas estávamos disposto a amar a criança que viesse... e de fato temos um amor imenso por ela, eu nunca fui mãe biológica, não imagino como seja o amor de uma mãe biológica, mas tenho um amor tao forte, tão grande por minha filha que se isso não for amor de mãe, então é uma extensão do amor de Deus.
    Hoje, após 7 meses, recebemos o tão sonhado ofício nos autorizando a fazer o registro de nascimento como pais da nossa anjinha...
    É impossível descrever a felicidade que estou sentindo....
    Adoção é a maneira que Deus escolhe para tornar possível um parto do coração...
    Adotar ñ tem nada a ver com bondade, caridade ou heroísmo... adotar é como eu meu marido nos tornamos pais da nossa filha....
    Não consigo entender como alguém pode abandonar seu filho depois de tê-lo adotado... filho é filho, é pra sempre...
    Abraços,
    Sueli

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  12. Sandra, to pasma com a história, maldade deles, deu a entender que devolveram a criança como uma boneca com defeito de fabricação . Onde quer que essa criança esteja, que esteja feliz. Como te respondi, adoção e ser consciente e transmitir o amor incondicional. "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que tu conquistas (livro Pequeno Príncipe) Fica bem xxx

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