12.8.17

Sobre suíços e tragédias

Brasileiro é um povo passional. Claro que há alguma generalização nisso, mas não há como negar que o temperamento do brasileiro é na maioria das vezes muito mais emocional do que racional. Muitas vezes falamos o que "dá na telha" e agimos impulsivamente para depois justificarmos dizendo que estavamos de "cabeça quente".

O suíço, por outro lado, é um povo mais racional e estável. Ou seja, eles não são tão temperamentais ou impulsivos como nós, brasileiros. Antes de tomar qualquer decisão eles analisam muito bem todos os lados para não serem levianos.

Nas últimas semanas aconteceram algumas coisas tensas aqui pela Suíça. Em uma delas um homem atacou e feriu algumas pessoas com um serra elétrica na cidade de Schauffhausen. A polícia, claro, tomou as providências. Alertou a população e pediu que o povo tivesse cautela, pois o sujeito era perigoso. A notícia divulgada pela impressa foi bem sucinta e sem sensacionalismo, como tudo por aqui. A população sabe que pode contar com a polícia e procuram não fazer alarde nestas situações. Todos (população, imprensa, governo) colaboram e simplesmente deixam a polícia trabalhar. Ela sabe o que precisa ser feito.

Em um dos fóruns de notícias aqui da Suíça que eu sigo, alguém leu a notícia e se incomodou porque a reportagem estava muito concisa. A pessoa deixou no post da notícia um comentário mais ou menos assim: "a quem a polícia quer proteger dando tão pouca informação"? Ao que alguém (uma suíça) responde: "Ninguém... na Suíça a polícia só dá informações quando têm fatos e é certo! Sem desinformação, sem notícias falsas, sem especulação...".  Ou seja, antes mesmo de gerar hipóteses sobre ser um ataque terrorista, ou qualquer outra coisa, a polícia foi cautelosa e procurou ter mais infomações antes de gerar notícias falsas e alarmistas. Esse é o espírito suíço. (Em tempo: o homem já foi capturado e preso. Não foi ataque terrorista.)

Outra situação aconteceu semana passada em um região montanhosa aqui da Suíça. Desta vez estávamos em uma cadeia de montanhas muito bonita por aqui chamada Diavolezza. A gente, vira e mexe, ouve sobre acidentes nas montanhas, mas até então eu nunca havia visto nada acontecer tão perto de nós como nesta situação. Bom, quando chegamos no local havia um carro de polícia, mas não percebemos nada de "trágico", não havia alarde nem nada, até porque o trabalho da polícia aqui, além de meticuloso é discreto, como já relatei neste post aqui.

Eu e meu marido percebemos somente um certo nervosismo por parte do funcionário do guichê para a compra dos tickets para o cable train. O homem demonstrou estar um pouco irritado porque a gaveta do caixa não estava abrindo e o pagamento para subir a montanha só poderia ser feito com cartão. Até ai, pra gente, tudo bem, nós nem andamos mesmo com muito dinheiro na carteira, pagamos quase tudo por aqui com cartão de débito. Como vocês podem perceber, eu não sou tão sucinta como a polícia daqui, pois ainda não cheguei na parte que interessa, rs..rs...

Bom, depois de alguns minutos, já lá em cima nas montanhas, vimos um helicóptero de resgate sobrevoando a região, indo e voltando e observando a região. Sobrevoou, inclusive sob as nossas cabeças!
Aos poucos vimos que algumas pessoas foram se "amontoando" para ver a movimentação do helicóptero. Vimos um alpinista sendo resgatado e amparado por, acredito eu, socorristas. Aparentemente e na medida do possível ele parecia estar bem. Algumas pessoas (nós inclusive) que estavam fazendo hiking ficaram - de longe - observando toda a operação. Ninguém fez alarde. Somente depois de alguns minutos um velhinho senhorzinho se dirigiu até o sujeito resgatado, provavelmente para saber em detalhes sobre o que havia acontecido. Curiosidade todo mundo tinha, mas só mesmo aqueles com uma certa idade, parecem se sentir livres e têm até uma certa permissão para se "intrometer" na vida alheia, rs...
Somente quando estávamos a caminho de casa, pelo rádio do carro, é que viemos a saber que naquela região, montanha adentro, três alpinistas haviam despencado e morrido. Um pouco antes disso um helicóptero que estava levando um grupo para acampar nos alpes também havia caído na mesma região deixando alguns mortos e gente ferida em estado grave.

O que eu quero dizer com tudo isso é que não houve motivo para alarmismo ou motivo para suspender as atividades de quem já havia se programado para caminhar nas montanhas. Claro que se a situação oferecesse riscos para os caminhantes, não nos teriam deixado subir. 

Fiquei imaginando se a mesma situação estivesse ocorrido no Brasil. Com o temperamento caliente que o povo brasileiro tem, quais seriam as chances de um evento deste ter passado quase como que "incógnito" para as pessoas que estavam por lá? Imagine se todo mundo já não estaria sabendo da tragédia, se não teriam que isolar a área por causa do rebuliço que os curiosos fariam e se aquela imprensa sensacionalista já não teria mandando um helicóptero também lá para registrar a operação e transmitir "flashes" exclusivos e ao vivo para a televisão?

Você ai está pensando que os suíços são frios? Não é que as pessoas aqui não se importem ou tão pouco se sensibilizam com as tragédias. Os suíços somente sabem que em casos assim, muito ajuda quem não atrapalha. Eficiência, discrição e praticidade. Assim é na Suíça!
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7.7.17

Passo de São Gotardo: entre duas Suíças

"Então, sempre subindo, vamos indo para alturas do Gotardo,
 onde os lagos são eternos
e onde o céu que flui, se derrama sobre si mesmo
Lá você poderá se despedir das terras alemãs
e em uma corrida alegre, um fluxo diferente 
irá levá-lo para a Itália, a terra prometida."
Escreveu em 1804 Friedrich Schiller, na peça em cinco atos sobre Wilhelm Tell o herói suíço

O passo de São Gotardo, ou Gotthard Pass tem 2106 metros de altitude e é um passo de montanha muito importante para a Suíça, estando localizado entre Airolo no cantão do Ticino e Goschnenen, no cantão de Uri. É a principal ligação entre a Suíça germânica e entre a Suíça de lingua italiana.

Somos tomados realmente por uma sensação bem interessante quando saimos da parte alemã da Suíça e chegamos ao Passo de São Gotardo. A Suíça italiana é sim, bem diferente da Suíça alemã (assim como da Suíça francesa).

Os topos das montanhas permanecem nevados mesmo no verão.
Morar na Suíça é morar em pelo menos três países diferentes. Como o território suíço não é muito extenso, cruzar da Suíça alemã ou francesa para a Italiana, por exemplo, é muito fácil e relativamente rápido. Assim a percepção das diferenças culturais se tornam muito mais aguçadas quando você mora na Suíça. No Brasil, por exemplo, que é muito mais extenso territoralmente do que a Suíça, muitos só vivenciam as diferenças culturais do próprio país pela televisão, livros ou quando, raramente, viajam do norte para o sul do país ou vice-versa.

As placas com a sinalização das trilhas para o lado italiano e para o lado alemão
Bom, chegando ao Passo de São Gotardo, encontramos uma atmosfera muito bacana: música ao vivo, motoqueiros, caminhantes de montanha e um dia lindo de sol! Um passo de montanha bem alegre, como vocês podem conferir no pequeno vídeo abaixo que eu gravei quando estive por lá.
Friedrich Schiller tinha mesmo razão, o astral desse lado da montanha lembra muito a Itália.

Alpenrosen: as rosas alpinas. Nesta época do ano essas flores são abundantes nas montanhas
A região do San Gottard, como não poderia deixar de ser, é muito proprícia para as caminhadas de montanha (wandern). Especificamente agora no verão, é um esporte com muitos adeptos aqui na Suíça. Há montanhas e trilhas para todos os níveis de hiking.
Eu e o silêncio das montanhas...
Apesar de estar a uma alta altitude, eu achei até bem tranquila a caminhada por lá, apesar de termos caminhando muito pouco neste dia. Há várias trilhas, mas neste dia, preferimos somente caminhar até o lago de Lago della Sella em uma caminhada bem leve de aproximadamente 45 minutos (sem contar as pausas para fotos, hehe).
Pausa para fotos! :-)
 Pequenas cachoeiras, cuja água vem do degelo das montanhas e das chuvas, também podem ser vista nas montanhas!
A caminhada é compensada, é claro, com a chegada ao Lago della Sella! Apesar de ser um lago artificial, sua beleza não é em nada afetada por isso.
 Como era começo de verão, o lago ainda estava sendo descongelado. Esse efeito do gelo sobre as águas deixou o lago ainda mais bonito!!

Essa região ainda é muito conhecida por albergar o Hospiz San Gothardo, que no passado servia como hospedaria e hoje é um confortável hotel com 11 quartos no meio dos alpes. O Hotel foi recentemente renovado e está listado como Patrimônio Europeu.
 

Os quartos deste hotel são dedicados às pessoas famosas que gostavam da região de Gotardo, como Goethe e Honoré de Balzac.

A partir do verão, fica aberta pra mim temporada de caminhadas nas montanhas! Quem curte?
Até o próximo hiking!!
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22.6.17

Notas sobre o verão

Verão na Suíça. Oficialmente começou ontem. Termômetros marcando 32 graus. Mormaço. Nenhuma brisinha leve para refrescar. Por aqui, a partir de trinta graus, o clima vai ficando "insuportável" quando se tem que fazer muita coisa na rua ou se você tiver que trabalhar sem ar condicionado.
Guaraná na Suíça? Temos!
Me seguro para não reclamar do calor, mas as vezes é inevitável. Do sol, não reclamo, afinal ele tem estadia curta por aqui.
 
Na internet morro de rir com este vídeo. Se para um cearense que vem da terra do sol estar reclamando assim, é porque o negócio tá tenso mesmo!

Aqui parece que há uma "obrigação" de aproveitar o verão. Nesta época do ano não faltam eventos ao ar livre. Parques, lagos, piscinas públicas, e espaços verdes estão quase sempre cheios. Também conseguir sentar-se à mesa ao ar livre para comer ou tomar alguma coisa, nem sempre é tarefa fácil. Tudo está sempre lotado no verão. ***classemédiasofre***



O melhor lado do verão na Suíça, talvez seja a mudança no humor das pessoas e o clima de descontração que toma conta das cidades. Conhecer a suíça (e o povo suíço) no verão, é totalmente diferente do que no inverno. Dias desses fui almoçar em um restaurante que eu adoro, fiz o meu prato, coloquei para pesar, na hora de pagar fui passar o cartão, ai eis que o rapaz do caixa diz que a máquina não estava funcionando. Quase  entro em "pânico" porque não estava com dinheiro em espécie, só cartão. Para a minha surpresa, não é que ele dá uma risada e diz que era brincadeira??? hahahahah... quem mora aqui sabe que o povo não tem dessas "ousadias" não. Só no verão mesmo. O "engraçadinho" ainda perguntou se eu não iria tomar um prosecco por causa do calor!
Não tomei prosecco, mas tomei um Sekt (um vinho branco frisante) em casa 😁
Sem contar as cidades que ganham flores por todos os lados. É realmente lindo ver tudo florido por aqui. Casas, sacadas, varandas de prédios, canteiros, fontes d´água, tudo fica mais colorido. Acho que já escrevi sobre isso neste blog, mas nunca canso.
 Casa em Brienz, na Suíça
Abaixo a fachada de um restaurante na região da Alsácia.

Aliás, eu nunca pensei que um dia fosse me interessar tanto por flores. Como a gente muda. Não que eu tenha talento ou paciência para ficar cuidando de plantas. Nem exatamente um jardim eu tenho, as minhas flores, com exceção de dois pés de hortênsias e de uma roseira (que deve ser por um milagre divino que tenha sobrevivido ao inverno), sobrevive (ou não) em vasos.
Cactos e suculentas que o marido adora e cuida


O fato de eu morar perto de uma floricultura que cultiva vários tipos de flores e revende diretamente para outros gartencenters, tem me levado a uma pequena falência neste verão. Fico sempre com vontade de comprar algum vaso novo de flor.


Enfim, parece que a Europa renasce no verão! A gente vive dias mais longos, almoça, janta, faz grill na varanda ou nos parques públicos, sai mais, é uma delícia.
Detalhe da mesa de inspiração tropical que eu decorei para receber amigos. Tô tentanto entrar total no clima de verão. hehe.

Aproveitando o embalo do verão, deixo aqui o vídeo de uma música que está bombando na Suíça alemã e tem tudo para ser o hit do verão!

Enfim, não dá para reclamar do calor verão. Bom, pelo menos seguirei tentando não fazê-lo.😘 Bom verão a todos!
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9.6.17

Tübingen, a pequena notável


Eu sofro para escolher nomes para as postagens. Fico querendo fugir do lugar comum, de se colocar no título só o nome da cidade, dai escolho essas pérolas (rs.), mas sim, Tübingen, apesar de pequena é uma cidade muito interessante.
Eu comecei a me interessar por Tübingen através do blog This German Life, da queridíssima Ana. Ela morou e estudou na cidade e vira e mexe escrevia sobre Tübingen, o que foi chamando a minha atenção para a conhecer essa cidade. Já tinha até olhado no mapa a distância e tal, mas sempre adiava. Pretendia também conhecer a Ana, quando estivesse em Tübingen, mas ai o tempo foi passando e a Ana já nem em Tübingem mora mais. Mas eu continuo em contato com a Ana e lendo o blog dela :-). Enfim, eis que pegamos um dia que foi feriado em Zurique (Sechselauten) e fomos finalmente conhecer Tübingen.

Tübingen fica localizada na região de Baden Würtemberg, cerca de 30km de Stuttgart, a capital do estado. É ainda uma excelente opção de bate volta para quem mora na Suíça, ficando há mais ou menos 2:00 hs de distância de cidades como Zurique, e 2:30 de cidades como Basel ou Aarau. Inclusive há muitas cidades interessantes nesta região, que está bem próxima à Suíça alemã, como Gegenbach, Esslingen, Triberg, Freiburg entre outras. 

A cidade, por ser pequena, é muito agradável e fácil de se locomover por ela. É possível fazer o principal (para os turistas) a pé. A poucos metros do centro novo da cidade, se chega a Altstadt (o centro antigo e histórico). Logo de cara a gente se depara com a lindíssima praça (Marktplatz). Esse é também um dos pontos mais icônicos e fotogênicos da cidade. No dia em que fomos havia uma feirinha por lá, o que deixou a praça com um ar ainda mais cool. Havia banquinhas de flores, frutas, legumes e produtos regionais.
 A linda Marktplatz em Tübingen
Abaixo a Marktplatz com a fonte de Netuno
Além disso, nesta mesma praça, está a prefeitura (Rathaus) e a fonte de Netuno, que chamam muito a atenção de quem passa por lá. O prédio da prefeitura possui um relógio astronômico que data de 1511 e que, até hoje, funciona.
 A Prefeitura de Tübingen e o seu relógio astronômico

Tübingen é uma cidade tradicionalmente universitária. Fundada em 1477, a Universidade de Tübingen é uma das mais antigas da Alemanha e atrai estudantes de várias partes do mundo. Embora a cidade seja muito tranquila, o clima que lá predomina é bastante jovial. Dos aproximadamente 80.000 habitantes, 20.000 deles são estudantes.

Às margens do Rio Neckar (que corta a cidade), percebemos uma atmosfera ainda mais ainda descontraída, onde os estudantes (e os não estudantes também,rs...) sentam-se às suas margens para fazer um lanche na hora do almoço ou mesmo para relaxar quando há um solzinho.
As pitorescas casinhas, que estão às margens do rio Neckar, dominam a paisagem e refletem-se nas águas do rio, criando um reflexo maravilhoso sob suas águas calmas.

Reflexos esses que são desfeitos somente quando alguma barca, do mesmo estilo das gôndolas venezianas, cruzam o rio e produzem ondas nele. As canoas (conhecidas como Stocherkähne) que trafegam pelo rio Neckar são tradicionais e já fazem parte da paisagem de Tübingen.
  Gondoleiros curtindo um descanso e o solzinho
 Dentre as lindas casas que margeiam o Rio Neckar, uma casa amarela com um formato arredondado no meio, chamada de Hölderlinturm é destaque e sempre mencionada nos folhetos de turismo, pois foi lá que o poeta Friedrich Hölderlin (1770-1843), que sofria de depressão, passou os últimos 36 anos de sua vida, após ter sido declarado louco.
Uma cidade jovial e com uma praça linda, casas maravilhosas que beiram o Rio Neckar e passeios de Gôndola. E como se não bastante tudo isso, a cidade ainda conta com um castelo, onde de cuja colina se avista uma boa parte da cidade baixa.

É através de uma ladeira próxima à Rathaus que somos conduzidos até o Castelo (Schloss) Hohentübingen, que foi o antigo castelo da cidade, funcionando hoje como um museu pertencente a Universidade de Tübingen.
O Castelo de Hohentübingen demonstrava toda a sua imponência e importância através de um portão em forma de arco romano. Nos tempos antigos, os ricos moravam na parte alta da cidade.
 
A parte lateral do castelo de Tübingen e o páteo interno dele.


Enfim, cidades como Tübingen que são "descobertas" através de blogs, são uma das coisas que eu mais gosto deste universo on line. Embora a blogosfera tenha mudado muito nestes últimos tempos, alguns blogs ainda continuam valendo mesmo a pena acompanhar. E eu acho tudo de bom quando sigo uma dica para conhecer um lugar assim, tão fofo, como Tübingen.

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